segunda-feira, 8 de abril de 2013

Emerson Machado causa repudia em fãs de Chorão


Vanessa Rodrigues

No início do mês de março, enquanto muitas pessoas estavam chocadas com a morte de Chorão, vocalista do Charlie Brow Jr., muitas outras ficaram pasmas quanto às declarações do repórter Emerson Machado, mais conhecido como Mofi, do Sistema Correio. Emerson afirmou que o Brasil não tinha perdido um profissional, mas um drogado. E ainda acrescentou que lamentava morar em um país onde as pessoas choram pela morte de um drogado.

O pronunciamento foi feito em seu próprio twitter, e em algumas horas já havia uma manifestação dos internautas que protestavam contra Emerson Machado. Imagens do Mofi com um X imenso foram publicadas e compartilhadas nas redes sociais, além de milhares de declarações indignadas dos internautas que utilizavam hastags repudiando o repórter. Causando um grande sentimento de revolta nos fãs de Chorão, Emerson ainda escreveu em seu microblog “nunca imaginei que no Brasil um homem que morre cheirando cocaína tivesse tanto valor”.

A polêmica trouxe um questionamento referente a este tipo de abordagem, já que programas como o Correio Verdade, em que o Emerson é repórter, retratam diariamente esta realidade e busca sensibilizar a população através do caixão dos outros. Este tipo de pronunciamento e a consolidação de programas sensacionalistas, principalmente nas classes C, D e E, nos faz pensar até que ponto as redes sociais tornam-se uma ampliação dos programas televisivos? Esta falta de tolerância para determinadas manifestações públicas corrobora que aos poucos está existindo certo de grau de consciência sobre o valor midiático e a responsabilidade social que os meios de comunicação acarretam.

No dia 8 de março, dois dias após a morte do vocalista do Charlie Brow Jr., um grupo de fãs do Chorão se pôs nas calçadas do Sistema Correio de Comunicação em protesto contra Emerson Machado. Gritos e cartazes com “FORA EMERSON” retrataram que os manifestantes explodiam de indignação e de dor pela perda do artista. A pequena expressão de rejeitar Mofi não resultou em uma demissão, mas nos alerta para um amadurecimento da população e o reconhecimento dos impactos que os meios de comunicação causam na sociedade. Já que os revoltosos gritavam “jornalista sem diploma”, nos faz pensar que agora não é mais uma questão do Ministério Público, mas um fator social.

Ações criminosas em transportes públicos, até quando?


Raíssa Diniz





Para a população que utiliza o transporte público diariamente na capital é comum vivenciar situações constrangedoras no coletivo, como assaltos, brigas e agressões. Nos últimos anos a criminalidade e ação de vândalos em ônibus de João Pessoa têm acontecido com bastante frequência, como exemplo, no período de janeiro a julho de 2012 que aconteceram 66 casos desse tipo, segundo os dados da AETC-JP citados no G1.

Geralmente os criminosos atuam em bando para roubar o dinheiro do caixa com o Cobrador ou individualmente para pequenos furtos em dinheiro ou equipamentos eletrônicos dos passageiros. Após um caso como este o procedimento correto é o motorista do veículo encaminhar a denúncia à polícia e registrar um boletim de ocorrência (BO) na delegacia. Na maioria das vezes esta ação ocorre, no entanto a informação não é tratada pelas autoridades responsáveis pela segurança e a população permanece sujeita a esta situação.

A partir daí, como apontar culpados? A polícia realiza operações esporádicas de fiscalização nos ônibus, nada com muito foco, apenas para demonstrar trabalho. As empresas de ônibus instalam câmeras avulsas nos coletivos, como se pudessem intimidar os bandidos. Pelo mesmo lado o poder público vira as costas para o problema e finge que nada acontece em relação a isso. Para tratar de casos como estes os órgãos competentes precisariam abandonar os interesses próprios de sua entidade e trabalhar em equipe para obter o bem comum, a segurança de todos.


domingo, 7 de abril de 2013

O prazer de Amélie


Renata Leitão


Falar de coisas simples, corriqueiras, cotidianas, nunca foi tão original quanto nesse filme. Le Fabuleux Destin d Amélie Poulain, que em português quer dizer “O fabuloso destino de Amélie Poulain” é um filme Francês, do diretor Jean Pierre Jenet, lançado em 2011, mas que particularmente, na minha casa, continua na primeira prateleira. É incansável assistir aquele cenário sempre à meia luz das tardes em Paris. Engraçado que me traz a sensação de reviver o que nunca vivi, não conheço a França, mas a película me deixa tão próxima que parece que fica ao lado da minha casa. Sabe aquele filme que te provoca sensações? Você sente o cheiro! E posso afirmar que é um dos mais familiares que já senti.

Amélie, interpretada pela atriz Audrey Tautou, é uma jovem parisiense, que na infância foi privada do contato com outras crianças pelos seus pais, e mesmo assim, não perdeu a esperança nas pessoas. Ela passa o filme inteiro dotada de uma solidariedade fora do comum e ajudando todas as pessoas que vê pelo caminho. Aquele famoso clichê "fazer o bem sem olhar a quem" lhe cai como uma luva. Mesmo cheia de traumas e amarguras, em sua vida solitária, ela procura amparar as pessoas, mas como toda ação gera uma reação, tanto para o mal quanto para o bem, o universo resolve conspirar e bota certo rapaz em seu caminho, Nino Quincampoix, interpretado pelo ator Mathieu Kassovitz. Ela, agora, apaixonada, continua em sua busca de ajuda ao próximo, e que termina esquecendo-se de si. O brilho desse filme, além das marcações e as cores serem deslumbrantes, está nessa vontade que a toma, pois o que vemos no mundo real é justamente o oposto. Filhos, pais, amigos, parceiros profissionais, mesmo desconhecidos, sem o mínimo de espírito coletivo. A sociedade que prega a individualidade, deixou a palavra falar tão alto, que se tornou difícil interceder pelos outros. Amélie, que por sua história deveria ser ajudada, resolveu ajudar.

Difícil enumerar o que mais me encantou nesse filme, mas a trilha sonora foi, de fato, escolhida a dedo. Todas as canções são do músico talentosíssimo e multifacetado Yann Tiersen. Me pego escutando toda a trilha diariamente, mesmo sendo toda instrumental. Tudo casa perfeitamente com o visual, evocando as emoções vividas pela protagonista.




http://www.youtube.com/watch?v=TnLgEEsu8Uo

Violência para o povo e para a elite

Flávia Lopes 

Em 2007 instituiu-se a TV Arapuan na Paraíba. A concessão do canal foi assinada pelo Diretor-Presidente, João Gregório, e pelo Ministro das Comunicações da época, Hélio Costa. Com isso foi declarado que o grupo Arapuan estava apto a prestar serviços à sociedade. Essa TV é transmitida na Paraíba pelo canal 14, e tem uma área de cobertura de transmissão para mais de 30 municípios do estado, alcançando um público de, aproximadamente, dois milhões de telespectadores. Apesar de filiada a uma rede nacional, “REDE TV!”, o canal 14 tem reservado para si algumas horas do tempo da emissora. Sua programação local é composta por sete programas, dos quais seis são jornalísticos. E são eles os objetivos principais desse texto.

Quando foi assinada a concessão de regularização da TV Arapuan, publicada no Diário Oficial da União no dia 4 de outubro de 2007, foi oficializada a prestação de serviços à sociedade por parte do canal. Logo, instituiu-se que, através de sua programação, a TV serviria ao meio social, cumprindo os direitos e os deveres de toda entidade de comunicação, regida pelo capítulo V da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, que tece regularidades a respeito da Comunicação Social.

Além de ser uma TV de concessão pública, a TV Arapuan é aberta, com isso aumenta mais ainda sua responsabilidade perante a sociedade. Essa carga de responsabilidade dá-se, assim como em tantos outros canais, através dos programas jornalísticos. O jornalismo nos dá aquilo que conhecemos como o direito fundamental à informação, o qual todos estão aptos a receber.

Essa informação não deveria ser segmentada, principalmente por que é um direito atrelado a qualquer pessoa, sem distinção de raça, cor, credo, ou classe social. O que se tem, no entanto, na prestação de serviços para a sociedade, por parte dos programas jornalísticos, pelo menos, é um serviço fragmentado em dois grandes segmentos, jornalismo popular, ou “sensacionalista”, e o “jornalismo político”, de caráter elitizado.

Essa distinção no jornalismo da Arapuan acontece à vista clara. Não que haja proibição de veiculação para um determinado público. Não é isso. O que acontece aqui é uma “super-segmentação” que deixa evidente o que é para o povo e o que é para a elite.

A imprensa é considerada, em uma sociedade democrática, um quarto poder. E a voz desse quarto poder é o jornalismo. É por ele que se dá a manifestação da expressão da imprensa. Essa noção potencializada dada aos veículos de comunicação surgiu primeiro com o filósofo e político anglo-irlandês, Edmund Burke, e depois com o escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle. Mas esse poder relativo à imprensa não é do tipo ditador, autoritário, ao contrário, esse poder se dá pela sutileza, quase imperceptível, tão sucinto que às vezes nem se percebe. Isso é a sua arma de influência.

Se o jornalismo já é em si uma potência de poder, imagine quando se agrega a outro tipo de poder, o Executivo, por exemplo? Isso é o que acontece no segmento que aqui chamamos de “jornalismo político” da TV Arapuan, que é apresentado no programa: “Rede Verdade”. Ele trata de um conteúdo do mundo político e econômico da Paraíba e veicula entrevistas com personalidades paraibanas envolvidas nessas áreas. O partidarismo direitista é claro, porém sucinto. Mas, mesmo sutil, é violento.

De acordo com Muniz Sodré, a violência é apresentada de várias formas dentro da mídia. O caso acima relaciona-seà violência social, a qual o autor considera como uma “violência silenciosa, invisível e burocrática, decorrente de um modelo social fixado pelas hipertrofilia centralista do poder – é o que podemos chamar de estado de violência ou violência social.” (SODRÉ, 2002, p.13)

Para o comunicólogo a violência não é dada apenas através de veiculação de atos violentos, principalmente essa violência social, pois ela ocorre em todos os âmbitos (econômico, político, psicológicos) da existência. Para Sodré apresentam-se em dois tipos básicos: “a violência direta, que é o uso imediato da força física; e a violência indireta (latente), que inclui diversos modos de pressão (econômicos, políticos, psicológicos) ou então a ameaça do emprego da força”. (SODRÉ, 2002, p.18)

No caso dos programas da TV Arapuan que se apresentam dentro do segmento, dividido aqui neste texto, de “jornalismo popular” também existe essa violência social, porém, mais forte ainda é a violência representada, que é aquela forma violenta mostrada visivelmente. Essas características são apresentadas nos programas: “Tribuna Livre”, “Cidade em Ação”, “De olho na Cidade”.

De acordo com o livro “Jornalismo Popular” de Márcia Franz Amaral este tipo de mídia reflete o seu público, ou seja, o público que não está imerso nas classes A e B.O segmento de jornalismo popular pode ser classificado pelo seu tipo de conteúdo e seu público. O conteúdo é basicamente o retrato de comunidades pobres, e sua audiência é dada, em geral, pelos habitantes dessas comunidades. O segmento de jornalismo político também é caracterizado pelo seu público, que é a elite política da Paraíba.

Apesar de serem opostos, esses dois segmentos interligam-se em um elemento: a violência. Ambos agridem aos seus telespectadores manifestando a violência social, esclarecida por Muniz Sodré. Embora sejam dirigidos a públicos diferentes, no final das contas, esse dois públicos recebem a mesma recompensa.

Em suma, essa é a caracterização do jornalismo feito na TV Arapuan. Neste canal, os programas locais são segmentados para públicos diferenciados e totalmente opostos. Enquanto um é feito para ser a “voz do povo”, o outro é elaborado para ser a “voz da elite”. Porém, esses públicos, distantes e convergentes em âmbito social, são alvos da violência, apresentada de várias formas.

O que se tem na TV Arapuan são programas jornalísticos com públicos e formatos diferentes, mas com uma essência em comum: a violência. Enquanto uns nos agridem ao apresentar a violência propriamente dita, aquela que acontece no cotidiano, outro nos agride através da influencia sutil de um partidarismo político. No final das contas, o tipo de jornalismo que se faz na TV Arapuan é um jornalismo violento, que tanto agride visualmente quanto agride integralmente. A violência é entregue à elite e jogada ao povo.


Referência

SODRÉ, Muniz. Sociedade, Mídia e Violência. Porto Alegre: EDIPUCRS/Sulina, 2002


Vídeos



Para o povo: O programa Cidade em Ação o repórter entrevista deficiente auditivo que matou a mãe com golpes de machado na cidade paraibana de Pedras de Fogo.


Para a elite: Entrevista com Cícero Lucena no Rede Verdade da TV Arapuan

O Nordeste por dentro: Visão de Arraes


Juliana Freire

Por vezes acanhado, mas sempre em busca de ser cabra valente. Ele é conhecedor da natureza, sabe driblar as inconstâncias do santo protetor de sua terra, não perde o sorriso “nem que dê a mulesta”, além de ser contador de histórias arretadas, da melhor qualidade. Espontâneo, prestativo, religioso, mas também pecador. Ninguém é de ferro e o santo é de barro. Dividido entre a pureza divina e a promiscuidade, a retidão e o pecado. Este é o nordestino representado por Guel Arraes no cinema brasileiro na última década.

Embasados em clássicos literários adaptados ao contexto nordestino, “ O Auto da Compadecida” (2000), “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) e “Romance” (2008), retratam uma região castigada pela própria natureza- só se for “in natura” política- em que a pobreza material é inerente àquela terra, mas não ao seu espírito. Nas versões cangaceiras do diretor pernambucano, o cenário é sempre uma cidade do interior, em que tudo que alude à modernidade, como a tecnologia, ainda é embrionário. Os personagens também legitimam o ar provinciano da localidade. Ao coronel, o privilégio de mandar e até matar na região sem punição, ao Padre, a benção de guiar, aconselhar e civilizar a sociedade, à mulher, ou a castidade ou a promiscuidade, nunca os dois juntos. Aos demais, a pobreza, a simplicidade e muitas histórias engraçadas e aumentadas a contar.

Guel Arraes conserva em seus filmes a essência do interior nordestino. Como que sem pretensão de criticar de maneira agressiva a desigualdade social e realçar a luta pela sobrevivência de um povo sofrido, o diretor aborda a temática com humor, abarcando o ponto de vista do próprio nordestino, que não se vê como um coitado, muito menos como um afortunado. O povo representado ri da própria desgraça, assim como na realidade, e sabe que no “Sul” a vida é diferente- apesar da estrutura de divisão de riquezas in loco acontecer de maneira similar- mas não se “aperreia” com isso não. “Não sei. Só sei que foi assim!”

Cena do filme "O Auto da Compadecida"
No “O Auto da Compadecida”, filme embasado no romance homônimo de Ariano Suassuna, João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) andam por Cabaceiras atrás de dinheiro fácil, até que se indispõem com Severino de Aracaju (Marco Nanini), cangaceiro da cidade. O enredo é marcado pela tragicomédia que envolve a vida daqueles dois personagens. Interessante atentar que, apesar de qualquer maldade ou malandragem realizada na trama, todos se curvam ao divino na hora do juízo final e externam reverência e respeito extremo às figuras de Jesus e Maria.

Independente da índole e dos pecados realizados, os personagens são crédulos na compaixão divina. A Mãe, o Filho e o rival, o Diabo, dividem a cena numa estrutura de disputa entre o bem e o mal, assim como ocorre dentro da consciência dos próprios personagens.

Em “Lisbela e o Prisioneiro”, uma adaptação da peça de novo homônima de Osmar Lins, também ocorre um conflito que parece ser típico da região retratada no filme: Pecado versus Pureza. O enredo narra a estória de uma mocinha casta (Débora Falabella) que ia casar-se com um malandro nordestino de sotaque carioca (Bruno Garcia). Enquanto isso, Leleu (Selton Melo), cabra desenrolado, se envolve com uma mulher casada, que se apaixona pelo galanteador. A estória ganha outro rumo, quando Leleu e Lisbela se conhecem e se apaixonam, deixando para trás o malandro e a adúltera. A castidade da mocinha é retratada como símbolo de qualidade feminina no Nordeste. E o bem (a pureza e o amor) mais uma vez vence o mal (o pecado).

Cena do filme "Lisbela e o Prisioneiro"
Não fugindo do previsto, “Romance” acontece sobre o mesmo viés: o maniqueísmo, o amor contra a trapaça. Naquele é utilizado o recurso da metalinguagem, em que o enredo do filme é a própria produção fílmica. Interessante que isto se desdobra como se Guel Arraes revelasse como pensara suas produções anteriores, já que segue na vida real o mesmo roteiro. Assim como aconteceu em “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”, “Romance” conta a história de uma adaptação televisiva da peça europeia do século XII, “Tristão e Isolda”, inserida no contexto do sertão nordestino.

O filme narra a estória de um romance representado entre os atores Pedro (Wagner Moura) e Ana (Letícia Sabatella) que se confunde com a o enredo amoroso vivido em cena. Vladimir Brichta, por sua vez, interpreta Orlando, um ator sulista que se passa por nordestino para ganhar a vaga no elenco da série em produção e confunde Ana quanto ao sentimento dela pelo diretor Pedro.

 Cena do filme "Romance"
Para representar o nordestino, Orlando exibe-se como conhecedor da natureza local, carrega um ar de timidez no semblante quando o assunto é amor, além de expressar características admiradas na região como valentia, honestidade e modéstia. Em contrapartida, o sulista, ao trapacear a produção do filme, revela crítica contundente a atitudes opostas aos valores regionais. No desfecho, Ana descobre a mentira inventada por Orlando e rende-se por completo ao seu amor, Pedro. Final feliz para os pombinhos novamente.

Nos três filmes de Arraes citados, os personagens assumem perfis bem firmados e valores solidificados que permeiam o imaginário social nordestino: o valente, a mocinha, a adúltera, o padre, o esperto, o coronel. Assim como ocorre na realidade, no interior nordestino esses estereótipos são ainda bem definidos e a crença em virtudes humanas também é bastante presente. Por isso, o conflito entre o correto e o errado é tão evidenciado na representação da região. O amor dando certo revela também a queda de Arraes por finais românticos. O que é externado no próprio “Romance”, em que o diretor representado na trama se angustia para elaborar um final de sucesso aos mocinhos.

Quase que fazendo uma trilogia do Nordeste brasileiro, Arraes representa em “O Auto da Compadecida”, “Lisbela e o Prisioneiro” e de maneira menos significante, mas ainda assim enriquecedora, em “Romance”, a Região em sua identidade cultural, em sua terra infértil, em seu jeito peculiar de viver. Envolvida por tons ácidos, as comédias possibilitam refletir sobre aquela realidade, desde a concentração de rendas que é a causa da pobreza local até o agraciamento de se viver numa região que conserva a simplicidade, o repente, o sotaque, a conversa frente a frente, os valores.

O nordestino representado pela ótica de Arraes aparece nos filmes como sujeito espontâneo e simples. Acredito que esse é o principal estereótipo que o diretor quer infiltrar do seu povo no cenário nacional, haja vista que a beleza do Nordeste encontra-se justamente quando seu ator principal assume-se como tal e não sente vergonha de seu “eu”. É bonito ser nordestino, mesmo com a pobreza da terra do interior, mesmo sem luxo ou água encanada. Feio é quem lhe tenta roubar a alegria, quem tenta lhe trapacear. Essa é a ideia. Pelo menos aqui o bem vence o mal. Final feliz para a Região.





Duas semanas com Samuka


Bruna Fernandes

Bilhete deixado pelo criminoso na cena de um homicídio.
(tradução: Roubou, morreu. E aí, Samuka, , é a lei do cão)

Quem nunca assistiu ao programa Correio Verdade e, mesmo assim, tem uma opinião nada boa sobre ele, pode continuar assim. Não perca seu tempo tentando seguir a ideia de que não se deve criticar o que não se conhece, ou procurando dar um motivo razoável para o que sai dali. Depois de uma experiência de duas semanas acompanhando o
dito jornal, afirmo que os trechos de vídeo e as opiniões que circulam pela internet e pelos demais meios são pura realidade, mas causam apenas um choque mínimo quando comparados ao programa inteiro.

Assistir a uma hora e meia desse espetáculo “da verdade” todos esses dias, em plena hora do almoço, complicou bastante a minha digestão. Entretanto, foi útil para confirmar que o cardápio servido por Samuka Duarte é repleto de sangue, choro, merchan e muita “criatividade” – além de erros grotescos de português e linguagem chula. Nesse período, foram noticiados quarenta homicídios/tentativas, nove assaltos, treze apreensões de drogas e ainda alguns acidentes e prisões. Cada notícia é acompanhada de comentários do apresentador, intercalados com falas e sons repetitivos (e irritantes) reproduzidos por quem comanda o áudio do programa: “dá pra repetir?”, “aonde?”, “Samuka, eu amo ele”, “Samuka, boy doido”, etc.
Samuka bebendo coco, ao vivo, durante o programa
Só o primeiro bloco dura, em média, quarenta minutos; essa é quase a duração total de outros jornais locais. Imagina quantas matérias de importância social poderiam ser colocadas nesse tempo! Mas não, em vez disso, o espaço é usado para dar voz aos bandidos (um deles até cantou um rap autoral em homenagem a Samuka) e aos repórteres, que (ab)usam do microfone para espetacularizar os crimes e o sofrimento alheio. E não é só o microfone que sofre, pois, para cativar a audiência e tornar a matéria mais “interessante”, os transmissores das notícias utilizam também outros artefatos. O “deu águia”, ou Marcos Antônio, por exemplo, é muito inovador em suas matérias. Sobre um acidente envolvendo um caminhão de bebidas, o repórter não hesitou em terminar a notícia segurando uma garrafa de cerveja e fingindo (ou não) estar bebendo seu conteúdo. Já a “dama de ferro” do Sertão, Jaceline Marques, começou uma matéria andando de moto, enquanto falava sobre um mototaxista traficante. Depois, para completar, o jornal volta para o estúdio e o telespectador se depara com o apresentador usando um capacete e se perguntando “será que vou pegar piolho?” Todas essas palhaçadas se repetem dia após dia, cada vez mais inusitadas. Sem esquecer que até crianças são convidadas a assistir o jornal, porque, segundo Samuka, elas pedem aos pais para assistir.
O famoso “môfi”, Emerson Machado, é mais “contido” (ou menos criativo), mas tem destaque por conseguir furos através de seus amigos de casa policiais. Para mim, o cúmulo foi quando ele, durante a gravação de uma matéria sobre um homicídio no São José, na capital, entrou na frente de uma ambulância do Samu, que corria de sirene ligada, para perguntar qual era a ocorrência, e ainda bateu um papinho com o socorrista.
Por essas e outras, durante a tortura experiência eu ficava, de certa forma, aliviada quando chegava a hora do merchandising. Ocupando boa parte do tempo do jornal e aparecendo entre uma morte e outra, anunciantes de tv por assinatura, loja de departamento, clínica odontológica, produtos farmacêuticos e até de faculdade, conquistam seus clientes samukianos diariamente. Afinal, se o Samuka (que tem a certeza de que é juiz, policial, advogado, psicólogo, professor...) deita no travesseiro desta loja, toma o suco pronto daquela outra, ajeita os dentes ali e aprova aquele vaso sanitário, quem sou eu, humilde ser atrás da tv, para fazer o contrário?


Veja algumas transcrições do programa feitas pelo Ministério Público: http://www.prpb.mpf.gov.br/DegravaesTVCorreioMJ.pdf

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Falta de educação deixa trânsito caótico

Felipe Gesteira

Criança sendo transportada de forma irregular no Centro de JP (Foto: Felipe Gesteira)


Aumentam os valores das multas de trânsito, as fiscalizações seguem ostensivas, e o que se percebe diariamente é que o próprio condutor, na maioria das vezes, é mal educado. Bebida e direção, motoristas parando em cima de calçadas, faixas de pedestre, fechando cruzamentos, além do excesso de velocidade e bastante imprudência. Muitos incidentes poderiam ser resolvidos e até evitados se boas práticas fossem aplicadas. Falta conscientização.

Em uma entrevista para o jornal A União publicada há cerca de um mês, o superintendente de Mobilidade Urbana de João Pessoa, Nilton Pereira, destacou a falta de educação dos motoristas. "Na verdade não existe falta de educação no trânsito. O problema é a falta de educação doméstica. Quem para em cima de uma faixa de pedestre ou de uma calçada é incapaz de ter gestos educados. Quem fecha um cruzamento não tem condições de abrir uma porta para uma senhora. O trânsito mostra os reflexos da educação que a pessoa tem", concluiu.

Passageiros viajam em cima de um carro pelo interior do Estado 
(Foto: Felipe Gesteira)

Uns devem cuidar dos outros, todos pelo bem comum. O Código Brasileiro de Trânsito é claro. Em seu artigo 29, inciso 12º, parágrafo 2º, diz: “Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”. Se fosse assim estaria tudo resolvido.

O que acontece na prática é o cidadão seguir as leis de trânsito não pela sua própria segurança, muito menos pela segurança dos outros, mas porque a infração vai doer no seu bolso. Assim foi com o cinto de segurança, que muitos não davam a mínima, e hoje, usá-lo se tornou hábito. Assim também vem sendo com a nova Lei Seca. O alto valor da multa (R$ 1.915,40) e o risco de terminar a noite na cadeia estão educando o brasileiro.

Policial e garupa trafegam sem capacete e desafiam a lei (Foto: Felipe Gesteira)
A leis acabam 'pegando', mas mostram a fragilidade do nosso sistema. Cumprir pela punição e não pelos riscos que o não cumprimento pode causar cria abismos onde a fiscalização é mais frágil. É muito comum ver cenas absurdas em ruas de menor movimento. Um exemplo simples são os casais que andam em motocicletas carregando crianças imprensadas entre os dois, como bagagem. Se não pensam na segurança dos próprios filhos, imagine dos outros?

No interior do Estado cidades inteiras funcionam sem leis de trânsito. Capacete para as motocicletas parece item opcional. Habilitação quase ninguém tem. A moto veio para substituir o jumento e quando uma blitz aparece as cidades ficam quase desertas de tantos veículos apreendidos.

Motorista estaciona na calçada do MPPB bloqueando o caminho dos pedestres 
(Foto: Felipe Gesteira)
E quando o motorista passa 'certinho' por uma blitz, sai avisando, cortando luz, postando no Waze. Avisar também é crime, e pode dar cadeia. Mesmo se não fosse, quem escapa da blitz por conta de um aviso pode ser o cara que tomou uma cervejinha, mas também pode ser um traficante portando drogas e armas, um sequestrador, ou até um motorista dirigindo um carro roubado. Um dia a vítima pode ser o mesmo cidadão que ajudou o bandido a fugir.

Somente a Educação pode revolucionar o país, e isso também vale para o trânsito. Quando a tão falada conscientização chegar, motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres poderão viver seu fluxo em paz.