quinta-feira, 4 de abril de 2013

Eu não quero ser jornalista

Larissa Guedes




“Até que ponto o jornalismo brasileiro está disposto a ir para assegurar sua audiência?”, “Será mesmo necessário abandonar todos os princípios éticos e morais do jornalismo em busca de audiência?”, “Quais os limites que ainda restam para serem ultrapassados pelo jornalismo sensacionalista, disfarçado de jornalismo policial?”, “Este é o tipo de jornalismo que a população quer assistir, ou ela assiste-o, porque não há outra opção?”, “Será completamente utópica a ideia de um jornalismo que informe sem agredir ninguém?”, e “Até quando vamos deixar esse tipo de programa violar impunemente a integridade da sociedade?”. Estas são algumas das perguntas que eu me faço quando me deparo com o jornalismo policial, sensacionalista e até mesmo cômico que domina as grades televisivas, radiofônicas e até as páginas de certos jornais “populares” no estado.

Esse jornalismo não se baseia e não se atém a nenhum tipo de preceito, seja ele ético ou moral, ele busca apenas o lucro. E para tal fim, os programas se utilizam de vários artifícios, como exibição de cenas chocantes, linguagem e palavreado chulo, espetacularização da notícia (e desgraça alheia) e recursos cômicos (tentando entreter para prender a atenção da audiência), como efeitos sonoros, ou o cajado do apresentador paraibano Samuka Duarte, ou até os jargões ditos pelos apresentadores (“É gradenal neles”, “Deu águia”,etc).

A cada dia aparece mais uma atrocidade que é feita por esses que se chamam de jornalistas. Todos os dias vemos cenas explícitas de estupro sendo mostradas em plena hora do almoço, imagens de pessoas baleadas, esfaqueadas e desfalecendo, etc., mas isso já se tornou banal e a população se mostra omissa ou anestesiada diante desta realidade.

Nesse tipo de programação vemos muitas entrevistas em delegacias nas quais os repórteres zombam, humilham e ridicularizam excessivamente os acusados. E quando estes reagem e tentam se defender, são julgados e condenados ao vivo, quando ficam acuados, são mais ridicularizados ainda. Por que isso é permitido e até apoiado pela população? Só porque o indivíduo cometeu um crime ele merece ser motivo de chacota? Não, antes de ser um criminoso, ele é um ser humano. Por pior que tenha sido o crime cometido, a pessoa não merece ser humilhada e ridicularizada dessa forma.Sim, ele merece cumprir pena pelo crime que cometeu e podemos até execrar os seus atos, mas devemos seguir os Direitos Humanos. Esse tipo de coisa não pode ser chamada de jornalismo! O verdadeiro jornalista deve sempre prezar pela verdade imparcial, opor-se ao autoritarismo e à opressão e, especialmente, defender e seguir os princípios estabelecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.Esta lá no Código de Ética do Jornalista!

Onde está o Estado para defender a integridade da sociedade, mesmo quando esta não clama por justiça? Onde está o Ministério Público para tomar alguma atitude com relação ao conteúdo desse jornalismo policial? O MP só entra em cena, só faz alguma coisa quando há uma comoção da sociedade em relação a um caso específico, quando uma dessas atrocidades cometidas pela mídia tem grande repercussão. Ao comentar sobre um caso desse tipo, a jornalista ThamiresCoêlho escreve: “Não foi o desrespeito à integridade física e moral de um ser humano que levou à punição, mas a visibilidade virtual dos abusos ali cometidos e a inquestionável reprovação da sociedade diante do ocorrido, como se a deturpação do jornalismo policial não fosse algo corriqueiro. Se o sensacionalismo jornalístico fosse motivo de punição (por si só), muitas grades de emissoras de televisão e radiodifusão estariam desfalcadas de programas que lhes rendem enorme audiência – bem como muitos portais denominados noticiosos seriam proibidos de divulgar boa parte de suas matérias da editoria de Polícia.”

“Vale a pena subsumir uma possível ética existente em detrimento da conquista de audiências massivas e lucrativas?”, questionam Joel Felipe Guindani e Éderson Silva em um artigo no blog Observatório da Imprensa. E questiono eu a mesma coisa! Vale mesmo a pena esquecermos todos os princípios morais, éticos, civis e humanos por dinheiro? Vivemos em um mundo capitalista, em que a produção e a venda dominam as relações e afetam as decisões, mas se isso continuar e a ambição pelo capital superar os valores morais vamos nos tornar uma sociedade primitiva e “animalesca”. Além disso, a população ficará cada vez mais alienada e inculta, e isso se torna um ciclo vicioso: só produzimos isso porque dá audiência, e isso só dá audiência porque só produzimos isso.

Como foi questionado no início deste texto, será mesmo completamente utópica a ideia de um jornalismo que informe sem agredir ninguém? Não! Mas a população precisa de mudanças, precisa de educação, para aprender a discernir o que é bom e o que é ruim enquanto produto midiático, o que lhe acrescenta algo e o que só ilude e aliena, o que é o bom jornalismo e o que não deve ser tolerado na mídia.É preciso ter em mente que o jornalismo tem uma responsabilidade social de informar, formar opiniões, levar o cidadão a uma reflexão crítica sobre o que está acontecendo na sociedade e até de educar. Cada profissional da comunicação deve ter a consciência do seu papel fundamental na sociedade, da sua responsabilidade social perante esta e se recusar a fazer esse jornalismo recheado de conteúdos de "entretenimento" de baixa qualidade e sensacionalista.

Para que o jornalismo sério, correto e ético ganhe verdadeiramente seu espaço na sociedade, inclusive nas classes mais baixas, é necessário que a população tenha educação e cultura. Isso é um investimento a longo prazo, precisamos tentar nos tornar uma sociedade menos imediatista e capitalista, pelo bem de nós mesmos, e assim, colheremos os frutos mais tarde.

Podem me chamar de iludida, de ingênua e de tola, mas se for para participar desse jornalismo deturpado de suas funções basilares, eu não quero ser jornalista!

O Som ao Redor, a lógica mercadológica e a pirataria

Jacy Araújo





Li ótimos comentários sobre o filme O Som ao Redor nas redes sociais. Alguns portais de notícias faziam boas críticas e continham análises instigantes. Porém, ele não aparecia nos cinemas de João Pessoa. Fiquei sabendo de sua existência em janeiro de 2013, mas o filme estreou em 2012, fazendo muito sucesso fora do país e ganhando inúmeros prêmios, além de ser aclamadíssimo pela crítica. Cansei de ler que ele era “a melhor obra cinematográfica do ano”.


Continuei verificando se o filme aparecia em cartaz nos cinemas... e nada. Nas semanas seguintes, fui até Recife e o procurei nas programações dos cinemas por lá. Foi mais uma tentativa em vão. Em meios aos panfletos e livretos do Recife, encontrei uma ótima crítica sobre o filme e uma entrevista com o diretor Kleber Mendonça Filho. Em sua filmografia vi que ele tinha feito o curta-metragem “Eletrodomésticas” que, inclusive, tinha assistido anos antes. Aliás, é um excelente curta que segue a mesma linha temática do primeiro longa do diretor: uma crítica sobre classe média do Recife nos anos 90. Isso tudo me instigou muito mais para ver o tal filme.


Semanas se passaram até que, finalmente, surge uma oportunidade para vê-lo nos cinemas do Shopping Manaíra. Eram três sessões especiais. Na primeira, os ingressos acabaram horas antes do filme começar. Voltei para casa frustada e indignada por tentarmos ver bons filmes sob essas condições. Na segunda tentativa, pedi a um amigo para comprar meu ingresso pela manhã, só para garantir que finalmente conseguiria assisti-lo. Enfim, consegui.


Quando cheguei no cinema do Shopping Manaíra, muitos amigos e outras pessoas estavam igual a mim, no dia anterior, de mãos abanando: o ingresso para aquele dia tinha acabado no período da tarde. Aqui, os filmes não comerciais e não veiculadas a grandes distribuidoras, são exibidos assim, em duas ou três sessões especiais, em que nós, os telespectadores, disputamos os ingressos - quase a tapas.


Primeiramente, em João Pessoa não temos cinemas fora do âmbito de um Shopping Center. Para irmos ao cinema, temos que, necessariamente, entrar em um shopping. Os filmes exibidos nesses espaços tentam, naturalmente, atrair um grande público e não está muito preocupado quanto ao conteúdo mostrado. O Cine Bangue, localizado no Espaço Cultural, não tem uma boa estrutura e, geralmente, os filmes apresentam problemas ao longo da sua exibição.





O Som ao Redor se distingue e se destaca por não reproduzir filmes que seguem uma lógica mercadológica do cinema brasileiro. Kleber Mendonça cria um estilo próprio, um olhar mais realista sobre o dia a dia de um bairro de classe média, explicitando a violência. Os atores vivem dramas de pessoas comuns, sem glamourização, que convivem com o conflito do medo e da violência urbana latente.


Após uma frase de Kleber Mendonça à Globo Filmes, o diretor da empresa fez uma crítica e um desafio ao recente cineasta. “Desafio o Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 000 assume publicamente que, como diretor, ele é talvez um bom critico”, disse Cadu Rodrigues, diretor da Globo Filmes. Em resposta, Kleber agradeceu o convite e não viu lógica alguma em que, para ser um bom diretor, tem que atingir um número “x” de espectadores. E não há lógica.


A Globo Filmes tem decaído visivelmente quando de fala nas temáticas dos longas-metragens recentes. Os temas dos filmes têm apelado, cada vez mais, pelo melodrama e pela comédia escrachada. Os filmes “E aí, comeu?!” “De pernas pro ar 1 e 2.”, por exemplo, levaram, sim, um grande público às telas dos cinemas, mas qual é a reflexão que podemos tirar desses filmes ao sairmos da sala de exibição?


Mais recentemente, O Som ao Redor chegou aos sites e blogs disponível para download. Kleber foi logo alertado e falou para todos ficarem tranquilos e “que deu sorte do filme só cair na internet um ano e meio depois do seu lançamento”. Acrescentou, ainda, que esse fenômeno não é pirataria, e classifica a pirataria como um esquema comercial de venda ilegal de filmes, o que nem sempre acontece com as pessoas que baixam conteúdos da internet. Além disso, deu força para continuarmos o compartilhamento dos links do filme. Imagina a incrível evolução que teríamos se muitos artistas tivessem essa mesma visão?!




Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=rj0eeHW7lXU


Link do filme para download: http://laranjapsicodelicafilmes.blogspot.com.br/2013/03/o-som-ao-redor-2012.html

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Crise aérea


Gabriel Romio



       Carlos não era rico o bastante pra ter o seu próprio helicóptero. Quase ninguém é, na verdade. Por isso, restou-lhe, assim como para outras milhões de pessoas, a opção de fazer o financiamento de um carro popular.
Como bom cidadão, ele se levantava cedo e pegava seu carro para se deslocar todos os dias para o trabalho. Por infelicidade ou coincidência, muita gente tinha o azar de ter que trabalhar também. Com isso, o caos estava feito.
O congestionamento só não era maior que o ódio de Carlos. Todo santo dia, a rotina girava em torno de buzinas, gritos, palavrões, cabeçadas no volante e úlceras de gastrite. Isso se manteve até vir o diagnóstico de “stress”, que o fez desistir do seu automóvel.
      “Pelo bem do meio ambiente, o transporte coletivo é a melhor opção”, mentia pra si e justificava para os outros. Ele só não sabia se todas aquelas pessoas que dependiam do ônibus não tinham carro, ou tinham tanta consciência ambiental. O melhor era não tirar a dúvida com o cobrador, mal-humorado por natureza.
      O calor infernal, os abraços compulsórios de gente suada, a habilitação comprada do motorista e o desaparecimento de alguns pertences durante a viagem foram tirando Carlos do seu estado saudável de sanidade. Ele não aguentava mais tanta gente pedindo dinheiro, vendendo bala, fazendo batucada e lamentando a vida.
Enfim, já havia acontecido o bastante para fazer as ideias de Carlos mudarem. Ele precisava achar uma solução com menos molestamentos. “Bicicleta! Vamos nos exercitar e mostrar como é que se faz num país desenvolvido”, pensou, dando a lição em si mesmo. Com capacete, joelheiras, cotoveleiras e coragem ele seguiu para sua nova empreitada.
Por sorte ele sobreviveu. A bicicleta não. Um dia de ciclismo serviu pra ele concluir que os playboys se acham os donos da rua com seus brinquedos importados; que motoristas de ônibus acham que o salário vai aumentar, caso mudem de faixa a cada minuto; que os pedestres só acreditam na morte por veículos motorizados; e que as mulheres... melhor não.
Carlos estava prestes a entregar os pontos. Resolveu adotar uma medida drástica. Iria agora, custe o que custar, até seu trabalho do jeito que Jesus se orgulharia: a pé. “Eu moro a duas quadras do trabalho. Por que não pensei nisso antes?”. E foi confiante e entusiasmado.
A regra era clara: erguer o braço, esperar na faixa e atravessar a rua - só que não. Se não fosse um cego a ajudá-lo a atravessar, Carlos teria passado o dia inteiro com o braço erguido na esquina. Teve sorte e não viu o que isso acarretaria se permanecesse ali com o cair da noite.
Nada funcionava e Carlos sucumbia. Ele precisava disso resolvido. Como viveria sem a garantia de se locomover? Ele estava preso em sua própria casa? Será que o visitariam? Ele morreria sozinho?
       Finalmente, eis que ele chega a uma decisão definitiva e que o manteria vivo. “Preciso de dinheiro! Vou comprar um helicóptero!”. Só não sabia como iria para o trabalho no dia seguinte.




Eliane Brum: defesa por mais empatia no que se conta

Aíla Muniz


Todos já sabemos das inverdades, más apurações e sensacionalismos (no sentido mais pejorativo da palavra) da imprensa. Não há dúvidas também de que esse tipo de comportamento deva ser colocado em pauta e analisado. Mas não é só de jornais que deturpam e jornalistas escravos do sistema que se forma a classe. Volta e meia, trabalhos mais aprofundados surgem. É o que acontece nos textos de Eliane Brum para a revista Época.

Brum já ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais e é conhecida por suas matérias não tão objetivas e enquadradas (muitas de cunho social). Suas colunas na Época perpassam temas que, através das histórias de pessoas comuns, expõem o cotidiano de tantos outros “desconhecidos” ao jornalismo convencional. Os que antes eram partes coadjuvantes das matérias usuais, passam a protagonizar as situações retratadas pela colunista. Através de suas personagens reais, Eliane Brum faz os leitores refletirem sobre saúde, política, economia, assistencialismo, corrupção, etc. É a partir de universos individuais que ela nos faz parar para analisar os contextos nos quais tais universos estão inseridos:

Cristina foi sepultada no mesmo dia em que o Papa renunciou. Enquanto no Vaticano Bento XVI acontecia, ali, em Aiquile, Cristina desacontecia. Não havia uma relação de causa e efeito no fato de que o mundo vivia um de seus espasmos, e na cidadezinha boliviana um cortejo comprido levantava poeira ao passar pelas ruas carregando Cristina. Era uma coincidência, só, que para aquele séquito, a decisão de Bento XVI não era notícia. Talvez, dias depois, alguém tenha comentado: “Parece que aquele Papa que renunciou usa marca-passo. Como a Cristina”. Era só o que os dois personagens, um de um drama acontecido, outra de um desacontecido, tinham em comum. E é aqui que as histórias se separam, porque o Papa jamais esteve na de Cristina, além desse encontro fortuito. Desse azar do Papa, que teve a dramaticidade do seu ato empanada pela grandeza do adeus de Cristina. […] Há sempre várias maneiras de descrever a causa da morte de alguém. A mais corriqueira seria dizer que Cristina morreu da doença identificada pelo brasileiro Carlos Chagas no início do século XX. É uma verdade que ela tenha morrido de doença de Chagas. Mas é uma verdade pequena. É preciso ampliar um pouco mais essa verdade. Cristina morreu porque a indústria farmacêutica não tem interesse em pesquisar tratamento, vacina e cura para as doenças dos pobres, as doenças de quem não pode pagar por medicamento. Cristina morreu porque, apesar de fazer um século que a doença foi descrita, a principal droga usada para o seu tratamento foi desenvolvida para outra patologia em 1960 e é produzida hoje apenas no Brasil, por um laboratório público, e na Argentina. Cristina morreu porque esse medicamento só alcançou a região onde ela vivia neste século, levado pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, e para ela já era tarde demais. Cristina morreu porque os camponeses moram em casas de pau a pique, cobertas de palha, onde até hoje em algumas delas centenas de barbeiros se escondem – centenas, até milhares em cada casa. E, se os camponeses mal tem o que comer, não há nenhuma chance de melhorarem o seu teto. Cristina morreu porque os barbeiros não são exterminados como poderiam e deveriam ser – e pessoas como ela são entregues a insetos que transmitem um parasita que pode matá-las. Cristina morreu, como os outros 14 mil que morrem da doença a cada ano, nas porções pobres do mundo e também na Amazônia brasileira, por causa da nossa omissão. Cristina morreu de silêncio. Leia o texto todo aqui.

Em histórias como a de Cristina, a escritora nos permite conhecer situações muito além do lead convencional. Ela não quer ficar restrita à passagem da informação, mas fazer com que as pessoas pensem. A emoção provocada é acompanhada de inquietação sincera e desejo de mudança. Os textos da colunista provocam ações efetivas, à medida que usam de ações efetivas para serem compostos. Além disso, Brum usa conceitos reais das ciências sociais em linguagem acessível, sem deixar de lado a sensibilidade que suas histórias, de fato, têm:

"Ela sabe quando acorda que é preciso converter carne em linguagem. O horror sem nome em algo que possa ser nomeado. Só é possível viver com aquilo que podemos dizer. É isso que nos faz humanos". Para ler na íntegra: aqui.

É em defesa de leituras como os textos de Brum que venho. É em defesa de uma empatia honesta e de um sensacionalismo de vertente ética que estou. O lead e objetivismo do jornalismo convencional não são suficientes, muito pelo contrário, são ocos. Os partidarismos disfarçados são muito menos valorosos que tomar o partido de alguém como Cristina. É em defesa de histórias mais aprofundadas sobre pessoas como eu ou você; dessa linguagem emocional, sincera e acessível ao tratar de assuntos sérios e densos. Que muitas outras Elianes Brums surjam, provando que isso é possível de se fazer.

Maria Rodríguez Barrios (à dir.) e Cristina Salazar López

Para ler as colunas de Brum toda segunda-feira, clique AQUI.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nem todo fotógrafo é repórter fotográfico

Felipe Gesteira

"Vire fotógrafo em um dia e ganhe até R$ 4 mil por mês". A frase absurda era chamada de capa em uma dessas revistas de futilidades, de circulação nacional, e gerou muita polêmica entre fotógrafos profissionais. Mas a categoria que exige mais respeito é a mesma que em sua maioria se prostitui, não se especializa e quer ganhar o respeito no grito.

A matéria é sensacionalista, obviamente, mas nem era pra tanta revolta. O texto é focado nos profissionais que trabalham cobrindo eventos sociais, como casamentos e batizados. É claro que todo fotógrafo precisa estudar bastante para ser o melhor na sua área, mas é possível sim clicar um evento social simples com pouca teoria. E é isso o que muitos vêm fazendo.

A grande questão é que no caso dos fotógrafos de casamentos e batizados, a relação de confiança é com uma pessoa física. Se o contratante confia em um profissional pouco capacitado, o único prejudicado será ele mesmo. Enquanto isso, muitos profissionais da imprensa, repórteres fotográficos, nunca procuraram estudar a estética da imagem, ou mesmo alguns conceitos de Jornalismo.

Foto de Francisco França vencedora do Prêmio
Vladimir Herzog 2012 e finalista do Prêmio
Esso de Jornalismo 2012, o mais importante do país
Existem exceções. Já trabalhei ao lado de um repórter fotográfico, com quem aprendi muito, que é jornalista 'de batente', mas já foi editor de Fotografia em jornal impresso, estuda diariamente e trabalha com um nível técnico altíssimo. Sabe mais de Jornalismo do que muito repórter diplomado.

Por outro lado, morro de vergonha alheia sempre que vejo um repórter fotográfico matando a gramática. Não precisa saber escrever um artigo, mas pelo menos o mínimo aceitável de sua língua nativa. E foram esses que mais reclamaram quando a matéria da revista saiu, com frases tipo "quero virar engenheiro ou médico em um dia!".

É preciso respeitar para ser respeitado. Uns se vendem por qualquer preço, como foto a R$ 1 "porque é pra galera do rock", enquanto outros não valorizam a capacitação, obrigatória no caso de engenheiros e médicos. Já vi mentira sobre a própria formação. Um coleguinha da imagem chegou a colocar no Facebook que estudou na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) sem nunca ter pisado lá. É uma afronta contra todos os que ralaram muito para entrar e concluir o curso de Comunicação.

E como nem todo repórter fotográfico pode de repente virar fotógrafo publicitário, entender de Fotografia não garante que o profissional possa virar repórter fotográfico. Fotojornalismo é linguagem representada por imagens. É a história inteira sendo contada, muitas vezes, por uma só fotografia. Pra isso é preciso estudar um bocado.

Mas pra que estudar se o cara pode arrumar um emprego público em uma assessoria onde é só 'fotografar as pautas'? "É um bom fotógrafo, mas não é repórter fotográfico", dizem seus superiores, e o mercado segue cheio de profissionais que antes garantiam seus empregos porque muita gente não se interessava em aprender Fotografia. 

"A fé que move o Sertão", de Marcus
Antonius, vencedora da 5ª edição do GP
Ayrton Senna de Jornalismo
Na pauta o governador vai assistir a um jogo entre dois competidores de futebol de botão. O cara fotografa o jogo, os botões, a equipe técnica, enfim, tudo menos o danado do governador assistindo ao jogo. Na outra o prefeito vai a uma escola entregar dois mil ioiôs e o bendito fotógrafo clica o prefeito, as crianças, as crianças com o prefeito e várias caixas pretas que supostamente contém ioiôs. Mas quem garante que estão lá se os ioiôs não aparecem? Quem garante que o governador foi mesmo ver o jogo? Jornalismo é notícia e fotografia é prova documental.

Se a falta de preparo entre repórteres fotográficos é latente, ainda pior é a situação dos repórteres cinematográficos, tanto que na Paraíba são chamados simplesmente de cinegrafistas. Também existem alguns muito bons, mas a maioria se limita a operar uma câmera e não entra numa discussão sobre Fotografia de Cinema.

O que acaba acontecendo quase sempre é o cinegrafista filmar o que o repórter aponta. E formado em Jornalismo mesmo eu não conheço nenhum. São guerreiros do batente, ralam muito para levar informação ao público, mas boa formação não faz mal a ninguém.

O mercado também tem culpa. Se antes contratava sem tantos critérios pela falta de opções, os tempos estão mudando e cada vez mais profissionais se formam em Comunicação entendendo bastante de como fazer uma boa imagem. Resta saber se haverá espaço para os mais capacitados e se o nível das imagens no Jornalismo vai mesmo subir.

A imagem da prostituta no cinema brasileiro contemporâneo

Umberlândia Cabral




A adaptação do livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco – que conta histórias de sua vida como garota de programa, quando usava o pseudônimo de Bruna Surfistinha – foi levado às telas de cinema em 2011. A cada momento surgiam novidades sobre quem seria a atriz escolhida para interpretar a protagonista, quem mais faria parte do elenco, como a história de Raquel seria contada no filme etc.
Quando o filme finalmente estreou, pudemos conferir em salas de cinema comerciais de todo o Brasil a história de Raquel (interpretada por Deborah Secco), filha adotiva de uma família classe média paulistana que resolveu se rebelar e se tornar garota de programa. O que a leva a tomar essa decisão no filme é o clima sempre tenso dentro de casa, o tratamento que ela recebe lá e o bullying do qual a protagonista é vítima na escola. Acompanhamos, então, a jornada de Raquel para se tornar Bruna – de patinho feio no colégio à prostituta de luxo. Na cena em que a personagem foge de casa para procurar um bordel, temos o acompanhamento de uma música dramática e as expressões faciais da atriz apontam um descontentamento que nos indica a vida de sofrimento que a jovem iria levar dali por diante.
O que podemos acompanhar durante o filme é uma constante preocupação de justificar a escolha de Raquel em se tonar prostituta e de mostrar a prostituição como algo sujo, feio e imoral. Na única cena em que Bruna Surfistinha gosta de fazer o programa com um cliente, interpretado por Juliano Cazarré, ela desiste de cobrar – como se isso fizesse parte de um código de ética das garotas de programa. Ela nunca pode gostar. No entanto, sabemos que a própria Raquel Pacheco nunca se arrependeu de se prostituir e gostava disso. Em uma entrevista ao programa De frente com Gabi (disponível aqui), a hoje escritora revela o porquê dessa decisão: “Eu uni o útil ao agradável. (...) Eu queria ganhar dinheiro e eu gostava de fazer sexo. Então eu uni um ao outro”. Nada, portanto, que justifique a versão de coitadinha que Raquel ganhou no filme. A protagonista é dona do seu corpo e naturalmente pode usá-lo da maneira que quiser. Isso parece que não ficou claro para a produção do longa-metragem, dirigido por Marcus Baldini. Como o filme é uma adaptação da autobiografia de Raquel, a história de como ela tomou a decisão de se prostituir e maneira que a prostituição é levada às telas de cinema é uma questão importante.
Outro filme que procura mostrar esse “coitadismo” por parte das garotas de programa é Jogo Subterrâneo, filme brasileiro de 2005, dirigido por Roberto Gervitz e baseado em um conto de Julio Cortázar. O filme conta a história de Martin (Felipe Camargo), um pianista que cria um jogo próprio para encontrar a mulher da sua vida. Todos os dias ele entra em um vagão do metrô, escolhe uma mulher e torce para que ela siga o mesmo caminho que ele. Se isso ocorrer, ele tenta se aproximar. Ao observar Ana (Maria Luisa Mendonça) no vagão, ele abandona as regras do jogo e se aproxima dela, mesmo que ela não tenha seguido o mesmo destino que o seu.
A relação de Martin e Ana se torna cercada de muito mistério, que um mantém para o outro. Ela esconde dele que é prostituta e faz de tudo, desde que aparece no filme, para sair dessa vida. Na tela, já conhecemos Ana como garota de programa de luxo, agenciada pela personagem de Maitê Proença. E também não fica claro como ela resolveu seguir essa profissão, que tanto causa repulsa nela. Em vários momentos do filme, o perigo de exercer a profissão é mostrado em cena, o que também acontece em Bruna Surfistinha.
Em Estomâgo, filme de 2007, que retrata a história do nordestino Raimundo Nonato (João Miguel) indo para a cidade grande com a esperança de ter uma vida melhor, a imagem da prostituta também é associada a uma coisa suja e vulgar. Na cidade grande, Nonato conhece a prostituta Íria (Fabiúla Nascimento) e se apaixona por ela. Íria é uma garota de programa de rua, que expõe o corpo para os clientes nas avenidas da cidade (o que diverge das outras prostitutas citadas nesse texto). Outro ponto que a diferencia de Ana e Bruna, é a explícita falta de educação formal da personagem, o que dá a impressão de que Íria entrou na profissão por falta de oportunidades melhores. O filme dá a entender que a personagem não ganha muito dinheiro com a prostituição e mesmo assim fica claro que ela não pretende sair da carreira, quando Nonato a oferece essa opção. Podemos entender então que Íria está na profissão porque gosta ou tem objetivos maiores que um possível casamento com o protagonista do filme.
Podemos observar, assim, que nos três filmes citados aqui, a prostituta é abordada com aquela personagem da música “Eu vou tirar você desse lugar”(disponível aqui), de Odair José. Mesmo que a personagem não queira sair dessa profissão, como é o caso de Íria, há de aparecer um Nonato para fazer a proposta de transformá-la em uma mulher de “vida digna”. O que dá para notar é um moralismo exposto no cinema brasileiro de que a mulher jamais pode ser protagonista ou heroína de uma história, se gostar de se prostituir. E se ela fizer isso, pode ser punida (como podemos notar pelo desfecho de Estômago. Sem spoiler!). O que quero mostrar aqui é como a imagem que temos da prostituta nas nossas telas de cinema ainda é unilateral. É óbvio que a garota de programa que quer sair dessa vida existe e deve ser mostrada, mas também deve haver um espaço para as que têm orgulho dessa profissão, que representa bem a tão lucrativa indústria do sexo.


Que tal um cineminha?

Aíla Muniz


Quando se fala em cinema em João Pessoa, a maioria dos comentários que se escuta é sobre a falta deles ou a respeito da precariedade dos existentes. Em contraponto a isso, pouco se vê dessas reclamações nas mídias tradicionais. Partindo dessas observações (isentas de embasamento quantitativo) e experiências, resolvi tecer um pequeno comentário citando pontos que poderiam ser melhorados nos cinemas pessoenses. Tomei como exemplo as três maiores redes da capital: Cinesercla, Box Cinemas e Cinespaço.
A começar do óbvio: a estrutura. Você entra nas salas de cinema, em especial nas do Tambiá (Cinesercla) e Manaíra Shopping (Box Cinemas) e não demora muito a notar o lixo da sessão anterior. Antes disso, provavelmente já passou pelo privilégio de sentir o cheiro de mofo grudando nas narinas. Em alguns (muitos) casos, a qualidade do áudio deixa a desejar e a má projeção faz alguns dizerem que o ingresso não valeu a pena. Em casos mais raros, depois de passar por todo o drama visual, auditivo e olfativo do durante, na saída, a pessoa ainda ganha o brinde de um chicletinho grudado na calça ou uma manchinha de ketchup.
Ainda no que defino como estrutura, está a: boa vontade de quem te atende! No Manaíra e no Tambiá não senti tanto isso quanto no Mag Shopping. O prazer das atendentes do Cinespaço ao vender os ingressos é contagiante. Percebi que não só eu sofria com a indisposição das vendedoras, depois de saber a seguinte história de um conhecido: na intenção de partilhar com os colegas de fila o quanto antes daquele olhar paciente da vendedora, e sem se sentir nenhum pouco pressionado pelo tempo que estava gastando para escolher um assento, um colega calculou de forma rápida (chutando os primeiros número e letra que vieram à mente) o lugar no qual gostaria de sentar-se. O resultado foi a compra de uma poltrona na terceira fileira, cheirando a tela. Claramente falta treinamento ao lidar com os usuários.
No que diz respeito ao público, nunca se sabe o que esperar. Trancado ali, você deve estar preparado para qualquer situação. De infrações mais leves (como as pessoas que passam o filme inteiro mexendo num saco plástico barulhento); passando por gente que passa os dez primeiros minutos de filme especificando cada horário de novela da Globo que cada ator de tal filme nacional faz; gente que atende celular pra dizer num tom de voz não tão sereno que “está no cineeema e não pode falar!”, chegando a níveis bem mais difíceis de se lidar como gente que passa um filme inteiro lendo a legenda em voz alta e fazendo pequenos comentários óbvios sobre o desenrolar da trama para alguém (provavelmente cego) que o acompanha. É difícil de imaginar, mas isso existe.
Além desses, existem os tipos irritantes de conhecimento geral e já esperados principalmente em estreias, os que têm grito pra tudo: “hmmmmmm” para cenas de demonstrações de afeto, “gostoso!” pra quando o lobisomem de Crepúsculo tira a camisa e mostra os – então – novos músculos, por exemplo; “corno!” pra quando, no sétimo filme, Hermione resolve seguir com Harry e deixa Rony sumir do mapa por uns tempos. É disso pra pior.
Esses são só alguns dos pontos gerais que mais me tiram do sério, mas é certo que cada um tem uma queixa diferente, uma situação tragicômica ou uma reclamação a gritar. É importante fazer a observação de que os cinemas da cidade são viáveis, claro (até porque se mantêm). Mas a programação e suas vantagens são coisas divulgadas constantemente, o que falta é se dizer que há de fato má qualidade em determinados aspectos do cinema de João Pessoa. Feito isso, é torcer para que pelo menos a sujeira e o básico, áudio e projeção, tenha uma mudança efetiva e mais rápida.